TEXTO – “Opinião”

Julho 29, 2008

Depois de fechar e espalhar seu participantes por aí, o Arena foi se ergueendo aos poucos passado o baque do golpe. Tendo como o golpe apenas o dia que instaurou o regime militar, não o regime em si, naturalmente, que estava apenas no começo de seus futuros vinte anos.

Abriu as portas inicialmente para shows musicais, de jazz e MPB, realizados em sua saleta às segundas-feiras. Só lá em setembro, no dia 2, que conseguiu estrear sua primeira peça do período não democrático, O tartufo, uma comédia escrita em 17xxxx por Moliére, em que um falso beato se aproveita de uma família burguesa por meio da fé. Para quem estava com medo de falar diretamente, acabava de vez os tempos de Black-tie. Eram os clássicos que falavam. E o tartufo puxava do nordeste e das ruas da década de 60 para a França do século 17???? os falsos beatos, sejam o mesmo de O filho do cão ou os da Marcha da Família com Deus pela liberdade.

No entanto, apesar de ser um dos grandes sucesso da casa, O tartufo fica ofuscado na história, como qualquer ou praticmente toda produção daquele ano, por outra montagem, primeiro contundente espetáculo, ou show, como o chama, que se conseguiu ou se ousou fazer depois do último 31 de março.

O Show Opinião estreou em 11 de dezembro de 1964 no teatro do Shopping Center Copacabana, sede do Teatro de Arena no Rio, e logo se tornou uma referência da adolescente arte de resistência e ponto de encontro obrigatório a quem quisesse compartilhar o ritaul político da descrença e da inconformidade coletiva.

Era uma produção coletiva entre o Arena e integrantes do CPC, instituição que, junto a sua matriz, a UNE, já estava ilegal a esta altura.

Boal dirigiu. O texto – não na compreensão tradicional da palavra – foi assinado por Armando Costa, Oduvaldo Vianna Filho e Paulo Pontes.

Opinião tinha um quê diferente de tudo que se fazia até ali no teatro. Não era nem teatro, nem show. Ou talvez fosse ambos.

No elenco, cantores. Entre os cantores, sambistas legítimos das batucadas dos morros: Zé Keti e João do Vale. Completando o grupo, a ex-musa da Bossa Nova, ícone da garota zona sul carioca, futura tropicalista e atual voz da canção de protesto Nara Leão.

Talvez até tenha sido em Opinião que teatro e música, requentados com toques de cinema e poesia, perceberam que deveriam ser uma coisa só, e daí se iniciariam aqueles primeiros anos de ditadura envergonhada, humilhada de 10 x 0 por um movimento cultural, estudantil e político inusitadamente articulado.

O Show opinião não era um texto aristotélico, ou stanislawskiano, brechtiano ou a forma que a dramaturgia pudesse prever.

Os atores-cantores intercalavam canções a narrações sobre o país – “Em 1950 havia dois milhões de nordestinos vivendo fora de seus estados natais…” – ou sobre si mesmos. “Meu nome é João Batista Vale, Pobre, no Maranhão, ou é Batista ou é Ribamar. Eu saí Batista”, começava João do Vale.

Entre as músicas e falas, desde letras de Vinicius de Moraes e versos de João Cabral de Melo Neto até citações de Deus e o diabo na terra do sol e a senteça de Tiradentes, passando por hinos da resistência cubana e sambas de Zé Keti e João do Vale.

Guarnieri também acabou no texto, como tudo o que era forte e recente na época. Versos que compôs com Lyra para a peça Missa agrária, de Chico de Assis (?) – “Glória a Deus Senhora nas alturas, e viva eu de amarguras, nas terras de meu senhor” – serviram de introdução à violenta “Carcará”, que a voz de Nara consagrou e que consagrou Nara como musa de protesto. Mais à frente, mesmo fenômeno se repetiria neste trecho com uma Maria Bethânia de 18 anos, mandada buscar de Santo Amaro da Purificação, onde o irmão Caetano Veloso já havia deixado Dona Canô antes, por indicação de Nara para substituí-la na ida de Opinião para São Paulo.

Lyra e Guarnieri ainda voltavam na linha do espetáculo pela voz de Zé Keti na canção “O feio não é bonito”, feita originalmente para Gimba.

Mas Guarnieri estava em São Paulo, conhecendo Edu Lobo para fazer Arena conta Zumbi.

Há canções de Guarnieri pelo menos nos seguintes trechos:

1. “Gloria a Deus nas alturas
E viva eu de amarguras
Nas terras do meu senhor”
(trecho da peça “Missa Agrária”, de Guarnieri e Carlos Lyra. pag. 39)

É a imediata introdução, cantada por Nara Leão, depois Bethania, a “Carcará”, de Joao do Vale
2. Na página 69, Zé Keti canta trecho de cançao de Gimba (“O feio nao é bonito”), de Guarnieri e Lyra.

3. Na pag. 79, Nara canta uma cançao sobre Tirandentes, creditada a Francisco de Assis (é o mesmo que o Chico de Assis?) e Ari Toledo. Será trecho da peça do Arena???

Tem uma compilaçao do show na Radiouol – http://b.radio.musica.uol.com.br/radio/index.php?ad=on&ref=Musica&busca=show+opiniao&param1=homebusca&q=show+opiniao&check=disco&x=0&y=0

Na ediçao escrita o texto é maior e há outras canções.

BIBLIOGRAFIA:
COSTA, Armando; VIANNA FILHO, Oduvaldo; PONTES, Paulo. Opinião. Edições do Val, Rio de Janeiro, 1965.